Gravidez

Gravidez

Mais um ano se passou. Eu já havia completado 28 anos.

Se eu for completamente sincera com você, Miska, eu diria que foi um ano surpreendentemente comum, desses que passam quase em silêncio, sem grandes marcos ou reviravoltas cinematográficas. Eu e seu pai estávamos bem. Estáveis, tanto emocional quanto financeiramente. Tínhamos construído uma rotina sólida, com seus pequenos altos e baixos, como qualquer casal. Brigávamos de vez em quando, é claro, mas nada que não fosse resolvido com conversa, carinho e, às vezes, um ou outro café compartilhado em silêncio. Era uma vida tranquila, e tudo indicava que seguiria assim.

Bom… eu diria isso, se não fosse por um detalhe que começou a se insinuar em minha vida, devagar.

Comecei a sentir que algo estava fora do eixo. No início, achei que era só cansaço, excesso de trabalho, talvez algum vírus passageiro. Mas os sintomas foram se repetindo com uma frequência estranha. Enjôos matinais viraram parte da minha rotina. Vômitos, sensações constantes de fadiga e um sono tão absurdo que parecia querer me sequestrar em plena tarde. O corpo não mentia: havia algo acontecendo.

Além disso, veio uma instabilidade emocional que me pegou desprevenida. Passei a chorar com facilidade, por motivos que nem eu sabia explicar. Coisas pequenas, mínimas mesmo — uma propaganda triste, um prato quebrado, uma lembrança solta — eram o suficiente para me desmoronar por dentro. Eu não me reconhecia.

E não fui só eu quem percebeu isso. Seu pai também notou — e não demorou a demonstrar a inquietação que crescia dentro dele. Quando falo que ele ficou preocupado, não estou exagerando. Era algo que transparecia no olhar dele, e não de forma sutil. Havia uma confusão ali que era quase tocável, como se ele estivesse tentando montar um quebra-cabeça cujas peças simplesmente não se encaixavam.

Seu pai sempre foi um homem emocionalmente centrado, não inabalável, claro, porque ninguém é feito de aço, mas ele sabia, na maioria das vezes, como manter a cabeça fria. Só que dessa vez era diferente. Ele estava tenso, silencioso demais em alguns momentos, falante demais em outros.

Como se quisesse resolver algo, mas nem soubesse exatamente o quê.

Foi então que seu pai, com a sensatez que sempre o acompanhou, sugeriu que eu procurasse um médico. E, honestamente, negar essa ideia nem passava pela minha cabeça, fazia todo sentido. Meu corpo já não respondia como antes, minha disposição estava comprometida, e até o trabalho, que sempre fora uma extensão do meu ânimo, começou a sofrer os efeitos desse mal-estar contínuo. Precisei pedir um afastamento. Nem os horários que antes seguiam como um relógio eu conseguia mais cumprir.

Fui, então, fazer alguns exames. Coisa de rotina, testes simples — ou pelo menos era o que eu achava. O que eu não esperava era que, em meio a tudo aquilo, uma notícia absolutamente transformadora estivesse prestes a surgir.

Depois de alguns dias, os resultados chegaram. O médico entrou na sala com uma expressão neutra, dessas que não entregam nada logo de cara. Sentou-se, abriu a pasta, me olhou com calma e disse, quase casualmente:

— Parabéns. Você está grávida.

As palavras demoraram a se acomodar na minha mente. Fiquei muda. A racionalidade escapou por entre os dedos como areia fina. Mas aí, quase que por reflexo, um sorriso se desenhou no meu rosto. Espontâneo, caloroso, cheio de uma alegria que eu nem sabia que estava esperando sentir. Perguntei três, talvez quatro vezes, se ele tinha certeza do que acabara de dizer. E ele só ria, afirmando com a cabeça, enquanto eu tentava compreender que, sim, uma nova vida estava crescendo dentro de mim.

Sabe, Miska..

Eu já tinha me pegado imaginando, em momentos soltos e silenciosos, como seria ter um filho. Ou melhor, uma filha. Uma pequena companheira que levasse em si um pedaço meu — não só biologicamente, mas emocionalmente também. Alguém pra ensinar, proteger, admirar. Alguém pra ver crescer, tropeçar, aprender, florescer. Alguém pra segurar pela mão nas quedas e aplaudir de pé nas conquistas. Uma menina que um dia me chamaria de mãe com orgulho nos olhos.

E imaginar que tudo isso estava prestes a deixar de ser uma fantasia e se tornar real... foi simplesmente indescritível.

Pensei em como seria chegar em casa depois de um dia exaustivo e ser recebida com um abraço seu, desses que curam o mundo. Ou ouvir da sua boca, pela primeira vez, um tímido e doce “eu te amo”. Pensar em tudo isso não me causava medo, tampouco angústia. Era só felicidade genuína.

Instintivamente, lancei-me nos braços do seu pai. Era um daqueles gestos impulsivos, cheios de uma felicidade tão grande que mal cabe no corpo. Eu ria, emocionada, enquanto lágrimas mornas escorriam pelo meu rosto sem qualquer controle. Foi um daqueles abraços em que o coração fala mais alto que qualquer palavra. Mas… houve um detalhe que não consegui ignorar.

Ele demorou alguns segundos para retribuir o abraço — talvez oito, nove, no máximo. Durante esses segundos, ele ficou estático, os olhos perdidos em algum ponto distante, como se estivesse assistindo a um pensamento que eu não podia ver. O rosto dele... era uma página em branco. Nenhuma reação, nenhuma expressão visível — apenas o silêncio de alguém que ainda tentava digerir uma realidade nova demais.

Só depois disso ele me envolveu nos braços com força, como se acordasse de um transe, e aí começou a sorrir, a demonstrar a empolgação que eu esperava desde o início. Tentou me acompanhar naquele turbilhão de alegria — e conseguiu, pelo menos em aparência.

Mas, sendo bem honesta com você, Miska… aquilo ficou na minha cabeça.

Passei uns dois, talvez três dias remoendo aquela reação inicial. Algo dentro de mim dizia que aquele silêncio, aquele atraso na resposta, não era apenas surpresa. Havia ali um peso, uma hesitação, que eu não conseguia nomear. E, por mais que eu tentasse convencer a mim mesma de que era apenas paranoia — que talvez eu estivesse lendo demais nas entrelinhas de um momento sensível —, não consegui me livrar da sensação de que ele, ao contrário de mim, não parecia verdadeiramente feliz com a notícia.

Mesmo assim, escolhi calar essa desconfiança à força. Preferi acreditar na versão que me trazia paz.

Então, empurrei a dúvida pra debaixo do peito, vesti um sorriso firme, e segui em frente.

No fim das contas, minha atenção e meu coração estavam ocupados com outra coisa, ou melhor, com alguém.

Eu estava esperando por você.


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